Contos (4)

A cidade ilhada

Contos  

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Como disse uma vez o escritor argentino Julio Cortázar, o conto é uma pequena e perfeita esfera verbal que guarda uma única semente a ponto de eclodir. A semente pode ser de qualquer natureza — um lugar, um rosto, um episódio —, contanto que as mãos hábeis do bom contista saibam torná-la o ponto central a partir do qual se forma a esfera narrativa. Desse feitio, justamente, são os contos que Milton Hatoum reuniu em A cidade ilhada: relances da experiência vivida recolhidos em tramas brevíssimas, de dicção enxuta, em que tudo ganha nitidez máxima — e máximo poder de iluminação. As sementes destes contos não poderiam ser mais diversas: a primeira visita a um bordel em “Varandas da Eva”; uma passagem de Euclides da Cunha em “Uma carta de Bancroft”; a vida de exilados em “Bárbara no inverno” ou “Enco fast cash advance ntros na península”; o amor platônico por uma inglesinha em “Uma estrangeira da nossa rua”. Com mão discreta e madura, Hatoum trabalha esses fragmentos da memória até que adquiram, sem que se adivinhe como ou quando, outro caráter: frutos do acaso e da biografia pessoal, eles afinal se mostram como imagens exemplares do curso de nossos […]

“Torn”

Contos, Short stories  

freedom

Freedom, short stories celebrating the Universal Declaration of Human Rights “A rich new collection of stories by some of the best fiction writers in the world today. Each is inspired by the Universal Declaration of Human Rights, one of humankind’s greatest achievements. We are all born free, but do we all live free? Freedom presents a provocative mix of stories that move, challenge, inspire and entertain. From the street of Zimbabwe to the green spaces of Edinburgh, each author takes you on a unique and powerful journey. Mainstream Publishing, London, 2009

“Exílio” – Caderno Mais!, Folha de S.Paulo, 15/08/2004

Contos  

A convite do Mais!, dois escritores, um cineasta e uma historiadora ficcionalizam e debatem seus temores íntimos e objetivos. Leia o texto Exílio na íntegra: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1508200404.htm

“Varandas da Eva”

Contos  

Varandas da Eva: o nome do lugar. Não era longe do porto, mas naquela época a noção de distância era outra. O tempo era mais longo, demorado, ninguém falava em desperdiçar horas ou minutos. Desprezávamos a velhice, ou a ideia de envelhecer; vivíamos perdidos no tempo, as tardes nos sufocavam, lentas: tardes paradas no mormaço. Já conhecíamos a noite: festas no Fast Clube e no antigo Barés, bailes a bordo dos navios da Booth Line, serenatas para a namorada de um inimigo e brigas na madrugada, lá na calçada do bar do Sujo, na praça da Saudade. Às vezes entrávamos pelos fundos do teatro Amazonas e espiávamos atores e cantores nos camarins, exibindo-se nervosamente diante do espelho, antes da primeira cena. Mas aquele lugar, Varandas da Eva, ainda era um mistério. Ranulfo, tio Ran, o conhecia. É um balneário lindo, e cheio de moças lindas, dizia ele. Mas vocês precisam crescer um pouquinho, as mulheres não gostam de fedelhos. Invejávamos tio Ran, que até se enjoara de tantas noites dormidas no Varandas. A vida, para ele, dava outros sinais, descaía para outros caminhos. Enfastiado, sem graça, o queixo erguido, ele mal sorria, e lá do alto nos olhava, repetindo: Cresçam […]