Crônicas (11)

Últimas visões de um cego

Crônicas  

 Alguns leitores e críticos consideraram Atlas uma obra menor na obra de Jorge Luis Borges. Comparar esse livro com Ficções (1944) ou O Aleph (1949) é um saudosismo legítimo do leitor, mas exigir de um homem de 84 anos mais uma obra-prima é algo que ultrapassa os limites do rigor e da exigência. Em casos assim, em que o julgamento implacável beira a crueldade, cabe a máxima de que o texto, com o passar do tempo, faz sua própria história.     Ilustrado com fotografias de María Kodama, Atlas (1984) foi o último livro publicado em vida pelo escritor argentino. A maior parte dos textos e imagens foi inspirada em viagens do escritor e sua acompanhante, com quem ele se casou poucos meses antes de morrer. Cinco poemas se intercalam entre as páginas desse livro que não se enquadra num gênero específico, sendo melhor falar de miscelânea de assuntos e modalidades de discurso. No entanto, os temas e a linguagem se encontram num labirinto e convergem para uma viagem que é também intelectual. A velhice encerra a maioria dos escritores em seu lugar; mesmo os que ainda têm alguma disposição física procuram a solidão voluntária, o isolamento radical e, não raramente, […]