Do autor (59)

Crônicas publicadas no Caderno 2 do jornal O Estado de S.Paulo e Agência Estado

Crônicas  

Crônicas publicadas no Terra Magazine

Crônicas  

Leia as crônicas publicadas entre abril de 2009 e junho de 2010: http://terramagazine.terra.com.br/ultimas/0,,EI6619,00.html

Salgueiro, de Lúcio Cardoso – orelha

Ensaios/Críticas  

salgueiro

Salgueiro é um romance denso e complexo, em que o Morro ganha contornos de protagonista. Neste segundo romance de Lúcio Cardoso, publicado em 1935, o então jovem escritor já revela um enorme talento na construção psicológica dos personagens. Estes são movidos por uma “força selvagem” que os conduzem a um “destino atormentado”, para usar as palavras do autor. Essa sondagem introspectiva será aprofundada em obras-primas como A Luz no Subsolo e Crônica de uma Casa Assassinada. Dividido em três partes – O Avô, O Pai e O Filho –, o morro do Salgueiro, no Rio de Janeiro, é construído como um lugar à parte, um problema incrustado na cidade. A narração em terceira pessoa dá a impressão de um narrador quase ausente, como se a ação se desenrolasse sozinha. Mas, aos poucos, o narrador participa de um modo mais ativo, principalmente quando explora o modo de ser dos personagens. O recurso, usado com habilidade, deixa antever a precisão técnica de Lúcio Cardoso. As três partes do romance expõem a história de três gerações de homens sem perspectivas. Ao longo da narrativa, o leitor percebe que o morro adquire vida própria, enquanto os personagens vão se descaracterizando, transformando-se em coisas. A […]

Veredicto em Canudos, de Sándor Márai – orelha

Ensaios/Críticas  

Foi a leitura apaixonada d’ Os Sertões que motivou o húngaro Sándor Márai a escrever Veredicto em Canudos. A prosa de Márai não é eloqüente nem intricada como a de Euclides. Deste talvez tenha emprestado algo do ritmo e das frases longas, mas o que prevalece é a linguagem concisa e elegante dos outros romances. A dívida maior com o escritor brasileiro reside na ironia terrível com que trata os militares e a prometida civilização da República nascente, na crueldade da guerra extremamente desproporcional das duas partes em conflito, ou ainda nos personagens, ambiente social, histórico e geográfico. Márai se apropriou do essencial a fim de fazer um recorte sobre o sentido mais profundo da comunidade carente de Canudos. O narrador, ex-militar do Exército republicano, é um bibliotecário que rememora, 50 anos depois, o fatídico dia 5 de outubro de 1897, quando cai o último bastião de Canudos. É um relato na aparência despretensioso, de alguém que não foi “nada nem ninguém em Canudos a não ser um simples cabo e testemunha anônima”. O romance é movido por uma série de ambigüidades sobre o destino do Conselheiro e, num plano mais geral, do Brasil. Ambigüidade também no âmbito do fantástico […]

Istambul, de Ohran Pamuk – orelha

Ensaios/Críticas  

istambul

É difícil não se envolver com a linguagem de Pamuk nesse magnífico livro de memórias, que é também uma mescla de elegia, confissão, crônica e ensaio. Istambul – antiga Constantinopla, sede do império bizantino – pertence ao imaginário exótico do Ocidente, mas o que se lê aqui é o relato apaixonado e amargo de um escritor que vivenciou a cidade intensamente. Filho de uma família burguesa, ocidentalizada e não-religiosa, Orhan Pamuk evoca a Istambul dos anos 50 e 60. As lembranças – às vezes inventadas e dramatizadas – aludem a uma infância “movimentada como um conto de fadas”, que se fragmenta na adolescência do futuro escritor. O narrador conduz o leitor não apenas à Istambul, mas também às ruínas de seu passado imperial, lançando um olhar crítico e afetivo sobre a obra de escritores e artistas turcos e europeus dos séculos 19 e 20. Um dos centros dessas memórias é o Edifício Pamuk, que se irradia para todas as direções da cidade, no tempo e espaço.  O outro, não menos relevante, é o Bósforo: a paisagem física e humana desse estreito marítimo que, para o escritor, significa muito mais do que uma rota de navegação. Istambul extrai sua força do […]

Capitães de areia, posfácio

Ensaios/Críticas  

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“Em 1937 Capitães da Areia foi censurado e depois queimado em Salvador”, disse minha professora de português, quando eu estudava no Ginásio Amazonense Pedro II, em Manaus. A frase da professora aumentou a curiosidade dos estudantes por este romance, um dos livros obrigatórios do curso de literatura brasileira. Por sorte, a leitura deu prazer aos jovens leitores. Agora, ao reler a história dos meninos do trapiche, encontrei o mesmo deleite, mas com outro olhar: o leitor de 1966 não é o mesmo de 2008. É surpreendente a atualidade dos temas de Capitães da Areia. O assunto e as questões sociais que o livro explora em profundidade são, em larga medida, os mesmos da “cidade da Bahia” e de muitas outras cidades, do Brasil e da América Latina. Lido hoje, este romance ainda comove e faz pensar nas crianças desvalidas, nas crianças de rua, nas crianças abandonadas, quase todas órfãs de pai e mãe, filhos da miséria e do abandono. Atiradas à marginalidade, elas roubam e cometem outros delitos para sobreviver. Detidas, são submetidas à humilhação, ao castigo, à tortura. A meu ver, este romance de Jorge Amado antecipou de um modo lúcido e incisivo a vida das crianças que esmolam […]

Apresentação de Salman Rushdie em palestra no Masp

Ensaios/Críticas  

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Torcedor aguerrido e melancólico do Tottenham Hotspurs, para quem não sabe, time da segunda divisão. É um prazer fazer essa breve apresentação à obra de Salman Rushdie, que está lançando no Brasil o seu mais recente romance, Fúria, traduzido por José Rubens Siqueira e editado pela Companhia das Letras. Esse romance parece ser um divisor de águas na ficção de Rushdie. Ao contrário dos outros, a ação não transcorre em Londres (como nos Versos Satânicos) ou na Índia (Os Filhos da meia-noite), tampouco no Paquistão imaginário, como Shame, (ou Vergonha que é o título do romance e também o outro nome da personagem Sufiya Zinobia e metáfora de muitas coisas). Fúria se passa em Nova Iorque, a metrópole iconoclasta, capital da concupiscência e maior templo de consumo do mundo. É uma crítica áspera a uma América superabundante e prepotente que, nas palavras do narrador, insulta o mundo. Embora essa crítica seja feita por um professor indiano Malik Solanka, que se muda de Londres para Nova Iorque) , penso que, mais uma vez, não se deve confundir o personagem com o autor. A meu ver, Fúria não é uma confissão nem um relato autobiográfico, e a visão de Solanka talvez seja […]

A morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi – orelha

Ensaios/Críticas  

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Nessa refinada tradução de Boris Schnaiderman os leitores  não vão esquecer os gritos incessantes de dor nos três dias que antecedem a morte de Ivan Ilitch. Apesar do título, a novela de Lev Tolstói não deixa de ser uma reflexão sobre a vida – a de Ivan Ilitch, sua família e os personagens que o rodeiam. E, por que não dizer, uma reflexão sobre nossa própria existência. Em oitenta páginas, o que se lê é uma crítica aguda ao mundo judiciário, com seus burgueses, burocratas e magistrados atados a normas e convenções sociais na Rússia da segunda metade do século XIX. Mais de um século depois, essa crítica é de uma atualidade surpreendente, e isso se deve ao grande talento de Tolstói, cujo relato traz para o nosso tempo e lugar os dramas de um passado e de um país distante. Nesse sentido, A morte de Ivan Ilitch faz jus à frase famosa do autor: a descrição de uma aldeia é a história do mundo. Ivan Ilitch, juiz de instrução, começa sua carreira ambiciosa com um casamento por conveniência. Depois desse matrimônio calculado, um amigo o nomeia promotor em São Petesburgo. Alcança, enfim, uma vida estável e confortável em que […]

Ninguém, nada, nunca, de Juan José Saer

Ensaios/Críticas  

Em Paris, no inverno de 1982, me deparei com Nadie Nada Nunca, um romance que, a meu ver, está no centro da obra de Juan José Saer e representa, por sua ousadia estética e elaboração formal, um ponto de inflexão na narrativa latino-americana. Encontrei o livro por acaso, meio escondido na estante de uma livraria de clássicos espanhóis. Comecei a lê-lo num café quase deserto do Marais, bairro onde eu morava, e lembro que terminei a leitura naquela mesma noite fria, sem ninguém por perto, sem nada para fazer senão acompanhar a dança das palavras, que nunca mais me abandonou. Os grandes romances revelam toda sua força expressiva na releitura, e Nadie Nada Nunca representou para mim algo mais: a culminação de uma trajetória literária, uma suma de idéias e posturas estéticas, sedimentadas na tradição da melhor prosa argentina. Pensei logo em Arlt, Onetti e Borges, e quase ao mesmo tempo em Faulkner e Claude Simon, talvez em Kafka. No fim, deixei de lado essa busca insana de paternidade e influências, para pensar que, depois de muito tempo e de tantos livros, Juan José Saer era ele mesmo: um escritor deslocado, quase ilhado em seu exílio voluntário, esquivo e mesmo […]

Por que traduzi Flaubert

Traduções  

…la tâche du traducteur ne va pas du mot à la phrase, au texte, à l’ensemble culturel, mais à l’inverse: s’imprégnant par de vastes lectures de l’esprit d’une culture, le traducteur redescend du texte, à la phrase et au mot. Paul Ricoeur, Sur la Traduction[i] Mencionei esse breve trecho de um livro de Paul Ricoeur, mas confesso a vocês que desconheço os mandamentos e fundamentos da teoria da tradução. Não sou um tradutor profissional. Traduzi apenas um texto de três de grandes autores franceses – Marcel Schwob, George Sand e Flaubert – e um livro de Edward Said – Representações do intelectual –. Esses autores franceses me interessam por razões literárias; o palestino-americano por razões éticas. É um privilégio traduzir apenas textos que admiramos, sobretudo no Brasil, onde o trabalho do tradutor – e por que não dizer do professor e do intelectual – ainda é pouco prestigiado, muito pouco reconhecido. No entanto, temos grandes tradutores. Os laços históricos, culturais e afetivos que unem a França ao Brasil certamente contribuíram para a formação de bons tradutores. Jorge Luis Borges declarou – não sem uma pitada de afetação – que na Buenos Aires das primeiras décadas do século passado, o desconhecimento […]