Do autor (59)

A cruzada das Crianças, de Marcel Schwob

Traduções  

Três contos, de Gustave Flaubert

Traduções  

tradução de Milton Hatoum e Samuel Titan Jr. Editora Cosac Naify, 2004

“Exílio” – Caderno Mais!, Folha de S.Paulo, 15/08/2004

Contos  

A convite do Mais!, dois escritores, um cineasta e uma historiadora ficcionalizam e debatem seus temores íntimos e objetivos. Leia o texto Exílio na íntegra: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs1508200404.htm

“Varandas da Eva”

Contos  

Varandas da Eva: o nome do lugar. Não era longe do porto, mas naquela época a noção de distância era outra. O tempo era mais longo, demorado, ninguém falava em desperdiçar horas ou minutos. Desprezávamos a velhice, ou a ideia de envelhecer; vivíamos perdidos no tempo, as tardes nos sufocavam, lentas: tardes paradas no mormaço. Já conhecíamos a noite: festas no Fast Clube e no antigo Barés, bailes a bordo dos navios da Booth Line, serenatas para a namorada de um inimigo e brigas na madrugada, lá na calçada do bar do Sujo, na praça da Saudade. Às vezes entrávamos pelos fundos do teatro Amazonas e espiávamos atores e cantores nos camarins, exibindo-se nervosamente diante do espelho, antes da primeira cena. Mas aquele lugar, Varandas da Eva, ainda era um mistério. Ranulfo, tio Ran, o conhecia. É um balneário lindo, e cheio de moças lindas, dizia ele. Mas vocês precisam crescer um pouquinho, as mulheres não gostam de fedelhos. Invejávamos tio Ran, que até se enjoara de tantas noites dormidas no Varandas. A vida, para ele, dava outros sinais, descaía para outros caminhos. Enfastiado, sem graça, o queixo erguido, ele mal sorria, e lá do alto nos olhava, repetindo: Cresçam […]

Últimas visões de um cego

Crônicas  

 Alguns leitores e críticos consideraram Atlas uma obra menor na obra de Jorge Luis Borges. Comparar esse livro com Ficções (1944) ou O Aleph (1949) é um saudosismo legítimo do leitor, mas exigir de um homem de 84 anos mais uma obra-prima é algo que ultrapassa os limites do rigor e da exigência. Em casos assim, em que o julgamento implacável beira a crueldade, cabe a máxima de que o texto, com o passar do tempo, faz sua própria história.     Ilustrado com fotografias de María Kodama, Atlas (1984) foi o último livro publicado em vida pelo escritor argentino. A maior parte dos textos e imagens foi inspirada em viagens do escritor e sua acompanhante, com quem ele se casou poucos meses antes de morrer. Cinco poemas se intercalam entre as páginas desse livro que não se enquadra num gênero específico, sendo melhor falar de miscelânea de assuntos e modalidades de discurso. No entanto, os temas e a linguagem se encontram num labirinto e convergem para uma viagem que é também intelectual. A velhice encerra a maioria dos escritores em seu lugar; mesmo os que ainda têm alguma disposição física procuram a solidão voluntária, o isolamento radical e, não raramente, […]

Relato de um certo oriente, edição de bolso

Romances  

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Órfãos do Eldorado

Romances  

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Houve tempo em que Manaus, ou Manoa, era sinônimo de Eldorado, a cidade prodigiosa que atiçava os sonhos febris dos navegantes e conquistadores europeus ao mesmo tempo que se furtava a todo esforço de localização. Essa miragem, que os desejos humanos engendraram e a história humana não cansou de dissolver, serve de mote a Órfãos do Eldorado, novela que dá seqüência à exploração ficcional do Norte brasileiro empreendida por Milton Hatoum desde Relato de um certo Oriente. Os desejos em jogo são os de Arminto Cordovil, filho de Amando e neto de Edílio, homens que fizeram fortuna a ferro e fogo no meio da floresta; e a história em que todos se enredam é a crônica de violência, fausto e tragédia na Amazônia entre a Cabanagem e o fim do ciclo da borracha. Na casa elegante em Manaus ou no palacete branco de Vila Bela, Amando nutre fantasias de proprietário e armador, enquanto Arminto teima em não ser o herdeiro perfeito da dinastia. De um lado, as ambições sem medida; de outro, a paixão e a raiva sem nome. Entre umas e outras, a unir e separar pai e filho, uma notável galeria de personagens, que vai de Angelina, a mãe […]

Dois Irmãos, edição de bolso

Romances  

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Cinzas do Norte

Romances  

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Cinzas do Norte, terceiro romance de Milton Hatoum, é o relato de uma longa revolta e do esforço de compreendê-la. A revolta cabe a Raimundo, rebento raivoso de uma família cindida ao meio e cuja vocação artística colide com os planos do pai; a tentativa de compreensão recai sobre Olavo, órfão industrioso que sobe na vida – se esse é o termo – à sombra imperial de Trajano Mattoso, pai de Mundo, comerciante rico, amigo de militares. O centro simbólico do livro não está, contudo, na Manaus do pós-guerra que vive os últimos dias da boa-vida extrativista e onde boa parte da ação se dá, mas rio abaixo, em Vila Amazônia, palacete junto a Parintins, sede de uma plantação de juta e pesadelo máximo de Mundo. Em sua luta renhida por escapar às ambições dinásticas do pai, Mundo distancia-se o quanto pode desse ponto-morto do romance, puxando o fio do enredo para o Rio de Janeiro, a Berlim e a Londres efervescentes da década de 1970. Advogado medíocre na cidade natal que o regime militar precipita em destruição vertiginosa, Lavo acompanha à distância os passos do amigo, recolhendo os reflexos do baile – para citar um outro romance sobre os […]

Dois Irmãos

Romances  

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Onze anos depois da publicação de Relato de um certo Oriente, Milton Hatoum retoma os temas do drama familiar e da casa que se desfaz. O enredo desta vez tem como centro a história de dois irmãos gêmeos — Yaqub e Omar — e suas relações com a mãe, o pai e a irmã. Moram na mesma casa Domingas, empregada da família, e seu filho, um menino cuja infância é moldada justamente por esta condição: ser o filho da empregada. Dois irmãos é a história de como se constroem as relações de identidade e diferença nessa casa. Mas o lugar da família se estende ao espaço de Manaus, o porto à margem do rio Negro: a cidade e o rio, metáforas das ruínas e da passagem do tempo, acompanham o andamento do drama familiar. O narrador busca a identidade de seu pai entre os homens da casa, entre os restos de outras histórias. Tenta reconstruir os cacos do passado, ora como testemunha, ora como quem ouviu e guardou, mudo, as histórias dos outros. Do seu canto, ele vê personagens que se entregam ao incesto, à vingança, à paixão desmesurada. Num jogo de inventar a memória, tenta transformá-la em ponto de […]