Final de jogo, crônica publicada na Folha de S.Paulo, 03/07/2002

Crônicas

 

Dizem que a Alemanha pode vangloriar-se por ter feito três boas traduções dos textos árabes das Mil e uma Noites. Nós, que infelizmente não temos nenhuma tradução do original, nos contentamos com outras magias. Foram os gênios brasileiros que, em carne e osso, saíram da garrafa na grande e última noite da Copa no Oriente.

            Nas vésperas do jogo, uma outra batalha estava sendo tramada por Gengis Kahn. O goleiro alemão foi tão louvado, que se tornou um mito guardião, um desses pequenos deuses protetores de uma nação. Mas diante do ataque da seleção brasileira, Oliver Kahn virou um mito decaído. Tenho a impressão de que já estava atônito e perplexo quando não encaixou o chute de Rivaldo. Na sobra, Ronaldo (o outro mito, isto é, o verdadeiro) surgiu da savana japonesa como um felino tranquilo e colocou a bola no canto esquerdo do coitado Kahn. Coitado?  Nem tanto. Antes da partida fatal, o goleiro, com cara de mau, rugiu desafios ao ataque brasileiro. Rivaldo respondeu com humildade, mas firmeza: a firmeza que faltou ao goleiro no chute que começou a desenhar o pesadelo da seleção alemã. 

Como tudo é imprevisível no futebol e na vida. Rivaldo, meio apagado no primeiro tempo, foi o co-autor dos dois gols brasileiros no segundo. Foi uma espécie de mago no segundo gol de Ronaldo. Numa fração de segundo, ele fingiu ser o dono da bola que aparentemente lhe fora destinada pelo grande Kleberson, atraiu a defesa alemã, pressentiu os passos de pantera de Ronaldo, e o deixou livre para marcar. Parecia um passe de mágica, uma dessas jogadas geniais de Pelé e Garrincha, que, mesmo sem tocar na bola, desconcertavam o time adversário.

Depois desse gol, o penta estava escrito. Em nenhum momento pensei que a seleção alemã, defensiva e tosca, pudesse empatar o jogo. A meu ver, a verdadeira final antecipada foi a partida contra a Inglaterra. Esta, sim, ameaçou a seleção brasileira. Virar aquele jogo foi uma façanha. A virada foi espetacular, e desse espetáculo participaram a garra, o talento, a vibração da equipe, e um gol ao mesmo tempo milagroso e enigmático. Nunca ninguém saberá ao certo se Ronaldo Gaúcho cruzou a bola ou chutou para fazer gol. Desconfio que nas duas hipóteses um atacante sonha em fazer um gol; desconfio também que a trajetória hiperbólica da bola vai apagar a dúvida sobre a intenção de Ronaldo Gaúcho. Foi um golaço tão assombroso e imprevisível que ficará na memória dessa Copa.

Por coincidência, ou pelas circuntâncias de cada jogo e do desempenho da própria seleção brasileira, essa Copa foi muito mais dramática e emocionante no segundo tempo das três últimas partidas. O chute de bico de Ronaldo no gol decisivo contra a Turquia; os dois gols contra a Inglaterra, e nesse mesmo jogo, a expulsão de Ronaldo Gaúcho e os trinta minutos finais mais sufocantes da Copa; finalmente, os dois gols de Ronaldo contra a Alemanha.

No segundo tempo dessas partidas a seleção brasileira se libertou do medo, encontrou seu ritmo, jogou de uma forma articulada e harmônica, confiou em si própria. O segundo tempo dessas partidas foi estouro, libertação e talento. A combinação de criatividade com disciplina parece ter sido um dos objetivos alcançados pelo técnico Scolari. Nesses últimos jogos ele dirigiu uma seleção cada vez mais coesa e bem plantada em campo.

A certa altura do segundo tempo dessa partida, um lance sem bola me pareceu fantástico. Edimilson saiu de campo para trocar a camisa rasgada. Era o momento de prender e tocar a bola, catimbar, desesperar o adversário. Fora de campo, Edimilson tentou várias vezes vestir a camisa nova. Não dava certo. A cabeça entrava por uma das mangas, os braços pelo buraco da cabeça, ou a cabeça e os braços por buracos errados. O modelo e o corte da camisa anti-suor dificultaram esse ritual. As camadas de pano formavam várias camisas, de modo que Edimilson não conseguia livrar-se de tantos forros com dobras complicadas. O tempo foi passando, e uma mera troca de camisa tornou-se uma catimba absurda. Foi meio minuto de graça num lance meio fantástico, que me fez lembrar o conto No se culpe a nadie, de Julio Cortázar. O título do livro vem a calhar: Final do jogo. Não sei se Edimilson sentiu a angústia do personagem de Cortázar. Mas às vezes, no futebol e na literatura, o imprevísivel e o absurdo aparecem com ar de graça. 

ou leia em:

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/esporte/fk0307200229.htm

Deixe seu comentário...