Quando estudava no ginásio Pedro II, em Manaus, lembro que um professor de literatura incluía no programa do curso alguns clássicos de outras regiões do Brasil. Ele nos dizia que o conhecimento da cultura do país passava pela literatura. O Nordeste de Graciliano Ramos e o Sul de Erico Verissimo provaram isso. Foi nessa época que li Vidas secas e, quase ao mesmo tempo, alguns trechos d’Os sertões e d’O continente, primeiro volume de O tempo e o vento. Ainda não tinha maturidade para assimilar o sentido histórico dessas obras, mas me deparei com imagens, situações e conflitos de um Brasil que me era estranho. E também com outro vocabulário.
A descoberta de uma nova linguagem e de outra paisagem social e geográfica aconteceu em 1969, quando comecei a ler Grande sertão: veredas no colégio de aplicação da UnB (Brasília). Foi uma leitura penosa e meio arrastada. Só depois, no começo dos anos 70, pude ler o livro inteiro com disciplina e, por que não dizer, paixão. Foi um dos livros mais surpreendentes de minha experiência de leitor.
Nesse romance a complexidade é tão grande que as possibilidades de leitura tendem ao infinito. Daí as centenas de artigos, ensaios, dissertações e teses sobre o romance de Rosa. Se considerarmos a literatura de vanguarda como uma construção radical da linguagem, elaborada com plena consciência de um fazer artístico arraigado numa experiência de vida e de leitura, então o romance de Rosa é, de fato, a última obra de vanguarda da nossa literatura. O livro preparou o terreno para um grande impasse. Osman Lins, ao dizer que sua preocupação inventiva focava no modo de organizar a narrativa e não na estrutura da língua, admitiu honestamente esse impasse e optou por outro tipo de inovação, de que Avalovara e Nove Novena são exemplos extraordinários.
A linguagem de Rosa – a linguagem inventada por João Guimarães Rosa – tem o raro poder de inibir e desarmar as gerações que o sucederam. De certa forma, a obra do escritor mineiro prejudica a literatura “regionalista” que tenta imitá-la, pois a influência da linguagem rosiana é uma armadilha, um convite para o pastiche ou para a caricatura.
O curioso é que essa linguagem, ao superar o regionalismo, recorre ao que há de mais concreto no centro-norte de Minas Gerais. As referências à fauna, à flora e à geografia dessa região são exatas, mas a linguagem não é uma transcrição da fala do vaqueiro e do capiau mineiro. Além disso, ao utilizar recursos de expressão poética, palavras antigas e em desuso, expressões indígenas e africanas, neologismos, e vários mitos e motivos literários (como o embate entre Deus e o Diabo e o tema medieval de armas e letras), Rosa transcende a perspectiva regionalista e alcança o universal. Nenhum de seus personagens é plano, todos têm a complexidade de um ser tridimensional e uma relação forte com o ambiente em que vivem.
As dúvidas metafísicas de Riobaldo aumentam essa complexidade e apontam para uma dúvida maior, que pertence ao velho jagunço e a todos nós: “Sertão é isto, o senhor sabe: tudo certo, tudo incerto”.
Ler um grande romance significa descobrir relações do leitor com o Outro. Relações que geram surpresa, inquietação, conhecimento, prazer e lançam o leitor num mundo desconhecido e instável: tudo certo, tudo incerto. Significa também que um grande livro é uma alegria para a vida toda.