Últimas visões de um cego

Crônicas

 

 Alguns leitores e críticos consideraram Atlas uma obra menor na obra de Jorge Luis Borges. Comparar esse livro com Ficções (1944) ou O Aleph (1949) é um saudosismo legítimo do leitor, mas exigir de um homem de 84 anos mais uma obra-prima é algo que ultrapassa os limites do rigor e da exigência. Em casos assim, em que o julgamento implacável beira a crueldade, cabe a máxima de que o texto, com o passar do tempo, faz sua própria história.    

Ilustrado com fotografias de María Kodama, Atlas (1984) foi o último livro publicado em vida pelo escritor argentino. A maior parte dos textos e imagens foi inspirada em viagens do escritor e sua acompanhante, com quem ele se casou poucos meses antes de morrer.

Cinco poemas se intercalam entre as páginas desse livro que não se enquadra num gênero específico, sendo melhor falar de miscelânea de assuntos e modalidades de discurso. No entanto, os temas e a linguagem se encontram num labirinto e convergem para uma viagem que é também intelectual.

A velhice encerra a maioria dos escritores em seu lugar; mesmo os que ainda têm alguma disposição física procuram a solidão voluntária, o isolamento radical e, não raramente, o silêncio. Não é o caso de José Saramago, que mora numa das ilhas do arquipélago das Canárias, mas anda por todos os continentes. Borges foi outra exceção: quanto mais envelhecia, mais viajava. Como num lance de premonição, morreu longe da Argentina, numa cidade – Genebra – para onde sempre quis voltar, “talvez depois da morte do corpo”. O que de fato aconteceu no dia 14 de junho de 1986.

Para ele, o avião em nada se parecia ao vôo: “o fato de sentir-se encerrado num ordenado recinto de vidro e ferro não se assemelha ao vôo dos pássaros nem ao vôo dos anjos… As nuvens tapam e escamoteiam os continentes e os mares. Os trajetos lidam com o tédio”.

Essas observações constam do texto El viaje en globo, em que Borges comenta a viagem num balão colorido que sobrevoa o vale do Napa, na Califórnia. Nesse vôo verdadeiro, o narrador, imerso num estado de jubilação, sente “uma felicidade quase física”. Na fotografia que ilustra essa viagem, Borges aparece rindo para María Kodama. A mesma foto ilustra a capa do livro.

É provável que esse momento de felicidade – uma felicidade que reaparece em outros textos – tenha incomodado alguns leitores de Atlas. Que um homem no outono da vida sinta um “rasgo” de alegria pode ser quase um milagre; condenar esse rasgo é uma perversão gratuita.

Num outro texto – Mi último tigre –, o narrador, com “evidente e aterradora felicidade”, aproxima-se de um tigre. O encontro acontece no Mundo Animal, um zoológico sem jaulas. Emocionado diante do belo e misterioso tigre de carne e osso, Borges afirma que não é mais real do que os outros animais que ele conheceu: os tigres representados nas imagens das enciclopédias, um tigre platônico imaginado por um artista chinês, ou os tigres da literatura de poetas e prosadores de língua inglesa.

Ao contrário do turista apressado, que quer ver tudo sem compreender nada do país visitado, Borges elege um ícone urbano ou um elemento da natureza, para então criar uma breve história fundamentada num mito. Assim, é capaz de desenvolver analogias simbólicas a partir de um objeto banal, “une brioche”, por exemplo; ou, inversamente, perceber numa escultura a forma agigantada de um botão.

Uma das ironias de Atlas é a referência a algumas fotografias e lugares, ou ainda a uma tragédia de Ésquilo, Prometeu acorrentado, a que ele assistiu numa noite memorável. É como se o leitor acreditasse nas palavras de um escritor impossibilitado de enxergar, mas sempre atento aos sons e às sensações do mundo invisível, e, sobretudo, aos lampejos da memória, que serviu de tema a vários contos e poemas e também às citações em palestras e conversas com jornalistas e amigos.  

Cego desde a década de 1950, Borges não viajava para ver, e sim para sentir e recordar, entre sombras e matizes de várias cores, a presença do lugar ou de algum ícone de um lugar visitado.   Périplo pelo mundo e pela cultura, Atlas é uma celebração de mitologias e uma viagem no tempo, duas matérias primordiais da literatura do escritor argenyino, e, por que não dizer, da literatura tout court

Um brioche comprado na padaria Aux brioches de la lune, o Saara e as pirâmides do Egito, uma praça em Reykjavik, uma esquina de Buenos Aires que pode ser qualquer uma e todas as esquinas, uma escultura numa praça de Filadélfia, cidades como Veneza, Istambul e Atenas, todos os lugares são pretextos para uma breve aventura intelectual, de que participa um narrador–viajante perplexo diante de paisagens, seres e objetos.

Não faltam citações a livros e autores da biblioteca borgiana, em que reaparecem duas imagens poderosas, metáforas do espaço e do tempo: o labirinto de Creta e um rio que, de tão lento, invoca o rio imóvel de Heráclito.

Em seu último livro, Borges continuou a glosar os mesmos textos com que ele havia dialogado em seus contos e ensaios. No conjunto, parecem formar um duplo (ou um arquétipo) da obra do próprio escritor argentino. De fato, Chesterton, Kipling, Coleridge, Shakespeare, Dante e Oscar Wilde são tão assíduos nas páginas desse Atlas como as observações de Spinoza – “cada coisa quer perdurar em seu ser: um tigre quer ser um tigre, e a pedra, uma pedra”.

Autores, livros e aforismos que podem ser aplicados ao próprio escritor. No poema Los dones, o narrador observa que um dos dons mais preciosos que recebeu é justamente “a linguagem, essa mentira”. Mas nenhum escritor é dono absoluto de suas mentiras ou dos mitos que se transformam em literatura, pois “toda palavra pressupõe uma experiência compartilhada”.

 Diante de um totem de uma tribo nativa do Canadá ofertada ao governo argentino, Borges comenta com ironia que “um governo sul-americano não se atreveria a correr o risco de presentear uma imagem de uma divindade anônima e tosca… No entanto, nossa imaginação se compraz com a idéia de um totem no desterro, um totem que obscuramente exige mitologias, tribos, encantações e talvez sacrifícios”.

No fim da vida, Jorge Luis Borges se assemelhava a um mito, talvez o maior da literatura hispano-americana contemporânea. Mais do que o homem, cujo destino se reduz a cinzas e esquecimento, sua obra perdurável é uma releitura inventiva dos mitos do Oriente e do Ocidente, de que esse Atlas é um exemplo magnífico.

Texto publicado na Coluna Norte, Revista Entrelivros, n. 11.

Deixe seu comentário...