A morte de Ivan Ilitch, de Tolstoi – orelha

Ensaios/Críticas

 

Nessa refinada tradução de Boris Schnaiderman os leitores  não vão esquecer os gritos incessantes de dor nos três dias que antecedem a morte de Ivan Ilitch. Apesar do título, a novela de Lev Tolstói não deixa de ser uma reflexão sobre a vida – a de Ivan Ilitch, sua família e os personagens que o rodeiam. E, por que não dizer, uma reflexão sobre nossa própria existência.

Em oitenta páginas, o que se lê é uma crítica aguda ao mundo judiciário, com seus burgueses, burocratas e magistrados atados a normas e convenções sociais na Rússia da segunda metade do século XIX. Mais de um século depois, essa crítica é de uma atualidade surpreendente, e isso se deve ao grande talento de Tolstói, cujo relato traz para o nosso tempo e lugar os dramas de um passado e de um país distante. Nesse sentido, A morte de Ivan Ilitch faz jus à frase famosa do autor: a descrição de uma aldeia é a história do mundo.

Ivan Ilitch, juiz de instrução, começa sua carreira ambiciosa com um casamento por conveniência. Depois desse matrimônio calculado, um amigo o nomeia promotor em São Petesburgo. Alcança, enfim, uma vida estável e confortável em que suporta a mulher e o ambiente familiar. No entanto, como ocorre num lance maléfico de um jogo de azar, uma doença grave surpreende Ivan Ilitch, e sua vida torna-se o avesso do esperado. Na família ele se depara com a futilidade e o vazio. No trabalho, o que prevalece são as relações interessadas e o favorecimento para a promoção de um cargo.

Desterrado em sua própria casa, acossado pela gravidade da doença e decepcionado com a mentira das pessoas que o cercam, Ivan Ilitch empreende uma viagem ao inferno, em que a dor física é tão intensa como a dor moral. Ambas se completam num sentimento de horror, que se revela através da consciência da morte.

Mesmo assim, Ivan Ilitch encontra algum sentido em sua vida. Por exemplo, na relação de amizade com o ajudante de copeiro Guerássim. Nas palavras certeiras de Paulo Rónai, apenas esse mujique – jovem humilde e ignorante – é capaz de dar provas de resignação diante da grave enfermidade de seu patrão. Com sua atitude natural em face da vida e da morte, Guerássim é o único elo de humanidade que resta a Ivan Ilitch.

Além desse laço afetivo, as lembranças da infância provam que nem tudo na história de Ilitch se reduz à mesquinhez e à hipocrisia. “Quanto mais voltava para trás, mais vida havia”, pensa Ivan Ilitch. Esse “ponto luminoso” que a memória fisga na infância  é o outro contrapeso às “veleidades de toda uma vida”, no momento em que a morte acena como um golpe implacável do destino.

Orelha para A morte de Ivan Ilitch, Editora 34, 2000

tradução de Boris Schnaiderman

Deixe seu comentário...