Apresentação de Salman Rushdie em palestra no Masp

Ensaios/Críticas

 

Torcedor aguerrido e melancólico do Tottenham Hotspurs, para quem não sabe, time da segunda divisão.

É um prazer fazer essa breve apresentação à obra de Salman Rushdie, que está lançando no Brasil o seu mais recente romance, Fúria, traduzido por José Rubens Siqueira e editado pela Companhia das Letras.

Esse romance parece ser um divisor de águas na ficção de Rushdie. Ao contrário dos outros, a ação não transcorre em Londres (como nos Versos Satânicos) ou na Índia (Os Filhos da meia-noite), tampouco no Paquistão imaginário, como Shame, (ou Vergonha que é o título do romance e também o outro nome da personagem Sufiya Zinobia e metáfora de muitas coisas). Fúria se passa em Nova Iorque, a metrópole iconoclasta, capital da concupiscência e maior templo de consumo do mundo. É uma crítica áspera a uma América superabundante e prepotente que, nas palavras do narrador, insulta o mundo. Embora essa crítica seja feita por um professor indiano Malik Solanka, que se muda de Londres para Nova Iorque) , penso que, mais uma vez, não se deve confundir o personagem com o autor. A meu ver, Fúria não é uma confissão nem um relato autobiográfico, e a visão de Solanka talvez seja um dos modos de Rushdie apreender os Estados Unidos no nosso tempo. No entanto, o protagonista pertence a uma família indiana de Bombaim; ou seja, de alguma maneira o país de origem não se desgarra do autor, como uma sombra inseparável, ou um duplo mais ou menos visível. Bombaim, esse belo nome de origem portuguesa, deve estar por toda parte nas obras de Rushdie e até em suas andanças pelo mundo, inclusive no Rio de Janeiro, onde todas as belas baías se encontram.

Por uma dessas ironias trágicas, Rushdie estava fazendo ou ia fazer uma leitura de Fúria no Texas, quando aconteceram os ataques às torres gêmeas e ao Pentágono. Desde então, as mudanças no mundo foram brutais (em todos os sentidos), e não por acaso uma mudança aconteceu no próprio romance: os atentados de 11 de setembro de 2001 deram ao romance Fúria uma outra dimensão, uma inesperada virada de leitura e interpretação. É como se um romance de idéias tivesse se tornado (por ingerência externa) um romance histórico, pontual, sobre o tempo em que vivemos. Não quero dizer que haja alguma profecia no livro, mas alguma coisa estava no ar ou nas entranhas do Oriente e do Ocidente, como um fogo escondido. Talvez seja mais adequado falar em premonição ou intuição de alguém que conhece o Oriente e o Ocidente, dois mundos a que pertence o autor: mundos cujas relações complexas e às vezes tensas ele abordou em vários romances e num livro de contos que se intitula justamente Oriente/Ocidente.

Além de escritor premiado (entre outros livros ganhadores de prêmios importantes, Midnight’s Children/ Filhos da meia-noite ganhou duas vezes o Booker [em 1981 e 15 anos depois], Rushdie é autor de uma novela Haroum e o mar de histórias, de um livro de viagem a Nicarágua que é sobretudo um relato político (The Jaguar´s Smile/O sorriso do Jaguar) , de sete romances, alguns deles extraordinários (Filhos da meia-noite e O último suspiro do mouro), que, à semelhança dos outros romances mencionados, misturam tradições literárias de vários matizes e origens (inclusive latino-americanas) para compor um mundo ficcional híbrido, formado por culturas diferentes, mas entrelaçadas, porque não há cultura pura ou isolada.

Além disso, Rushdie publicou dois livros de ensaios e artigos (Imaginary Homelands/Pátrias Imaginárias-1981-1991) e Step across this line. São artigos e ensaios críticos sobre música pop, TV, cinema, política e literatura.

Como ensaísta e autor de obras ficcionais, o narrador de Rushdie parece estar sempre em trânsito, abordando temas e problemas que vão do Oriente ao Ocidente, numa viagem crítico-imaginária de mão dupla. Não pertencer inteiramente a um único lugar ou país (ou pertencer a mais de um lugar) talvez seja uma das opções do auto-exilado, que, no entanto, nunca perde o sentido e a dimensão da História, do poder político e econômico que não pára de gerar conflitos. Certa vez Rushdie se autonomeou um escritor do Terceiro Mundo, criticando ditadores e regimes autoritários da Índia, do Paquistão e da América Latina, sem poupar críticas a políticos como Thatcher, Reagan e agora Bush. A crítica contundente ao Poder e a todos os fundamentalismos têm marcado as intervenções públicas de Rushdie.

A Independência da Índia em 15 de agosto de 1947 e a subseqüente partição da ex-colônia britânica que geraram a criação de outro país (o Paquistão), geraram também esses filhos da meia-noite: o romance e o escritor. Ambos são filhos da partição, do dissentimento e também do exílio. De certa maneira, a literatura de Rushdie discorre, às vezes com um humor feroz, sobre dois grandes temas: o Poder e o exílio. O Poder que está disseminado por toda parte (Oriente/Ocidente) e o exílio que, por um lado, é interior e subjetivo, e, por outro lado, o exílio a que estamos condenados a viver e enfrentar, nesse tempo que, para usar as palavras do Narrador de Fúria, tornou-se um intolerável presente.

MASP, 19 de maio de 2003

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