Uma lição de cinema, Revista TRIP

Ensaios/Críticas

 

O filho mais querido é o pequeno até crescer, o doente até sarar, e o ausente até voltar.

Ditado árabe

Não é comum um grande livro de ficção inspirar um grande filme. Mais raro ainda é o diretor do filme aceitar o desafio do texto e transformá-lo também numa aventura da linguagem.

Quem assistir ao Nosso Diário – um documentário sobre a filmagem de Lavoura Arcaica -, vai encontrar uma lição de cinema, o que vale dizer: uma lição de profissionalismo sobre o fazer cinematográfico. Além da conversa entre André Paquet e Fernando Solanas, ressaltam os depoimentos de toda uma equipe movida pela pesquisa e pelo amor à matéria filmada. Amor? Penso que ali há um estado de transe, de graça, tamanho é o envolvimento entre o texto e o que será filmado.

A idéia de construção está presente desde o início do Diário. Primeiro, a reconstrução do espaço físico da sede da fazenda e de seu entorno. Depois, um esforço de compreensão do romance de Raduan Nassar, o trabalho dos atores, a passagem da pessoa à personagem. Enfim, dois depoimentos notáveis: do diretor Luiz Fernando Carvalho e do diretor de fotografia Walter Carvalho. Num certo momento, Walter afirma que “o melhor fotógrafo é o que mente melhor”. E Luiz Fernando alude ao filme como uma “cartografia da alma”. Duas observações que se completam e flertam com a literatura. O escritor Edward Forster dizia que um romance é uma obra elaborada com rigor,  mas encharcada de humanidade. Essas duas coisas –construção e drama humano –  são os pilares da prosa poética de Raduan. Não é outra a perspectiva do filme, cuja cartografia da alma é desenhada pelo olhar do diretor e de toda a equipe. Na difícil travessia da palavra para a imagem, Lavoura Arcaica recupera a essência do texto, valorizando o que há de mais poético e dramático de uma linguagem à beira do abismo.

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