Veredicto em Canudos, de Sándor Márai – orelha

Ensaios/Críticas

 

Foi a leitura apaixonada d’ Os Sertões que motivou o húngaro Sándor Márai a escrever Veredicto em Canudos. A prosa de Márai não é eloqüente nem intricada como a de Euclides. Deste talvez tenha emprestado algo do ritmo e das frases longas, mas o que prevalece é a linguagem concisa e elegante dos outros romances. A dívida maior com o escritor brasileiro reside na ironia terrível com que trata os militares e a prometida civilização da República nascente, na crueldade da guerra extremamente desproporcional das duas partes em conflito, ou ainda nos personagens, ambiente social, histórico e geográfico. Márai se apropriou do essencial a fim de fazer um recorte sobre o sentido mais profundo da comunidade carente de Canudos.

O narrador, ex-militar do Exército republicano, é um bibliotecário que rememora, 50 anos depois, o fatídico dia 5 de outubro de 1897, quando cai o último bastião de Canudos. É um relato na aparência despretensioso, de alguém que não foi “nada nem ninguém em Canudos a não ser um simples cabo e testemunha anônima”. O romance é movido por uma série de ambigüidades sobre o destino do Conselheiro e, num plano mais geral, do Brasil. Ambigüidade também no âmbito do fantástico e do absurdo, como o sorriso irônico na cabeça degolada do Conselheiro; ou a prisioneira esfarrapada,  que depois de tomar um banho milagroso, reaparece como outra, dialogando com o marechal Bittencourt. É nesse diálogo final e dramático que o narrador de Márai aborda questões de uma atualidade surpreendente: de que lado se encontram a barbárie e a loucura? Que civilização é essa que pratica o genocídio contra um povo miserável? Qual o destino dos mais fracos diante da prepotência e da força dos poderosos?

Para essa mulher, mensageira do Conselheiro, Canudos se opõe de uma forma radical e desesperada aos ideais republicanos a fim de instaurar não uma “nova sociedade”, mas “uma nova vida”. A história tem mostrado que a utopia dessa “nova vida” é algo impossível. No conformismo quase generalizado da nossa época, esse Veredicto é ao mesmo tempo um alento e um desafio, pois “o impossível é a única coisa em que vale a pena acreditar”.

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