Cinzas do Norte

Romances

 

Cinzas do Norte, terceiro romance de Milton Hatoum, é o relato de uma longa revolta e do esforço de compreendê-la. A revolta cabe a Raimundo, rebento raivoso de uma família cindida ao meio e cuja vocação artística colide com os planos do pai; a tentativa de compreensão recai sobre Olavo, órfão industrioso que sobe na vida – se esse é o termo – à sombra imperial de Trajano Mattoso, pai de Mundo, comerciante rico, amigo de militares.

O centro simbólico do livro não está, contudo, na Manaus do pós-guerra que vive os últimos dias da boa-vida extrativista e onde boa parte da ação se dá, mas rio abaixo, em Vila Amazônia, palacete junto a Parintins, sede de uma plantação de juta e pesadelo máximo de Mundo. Em sua luta renhida por escapar às ambições dinásticas do pai, Mundo distancia-se o quanto pode desse ponto-morto do romance, puxando o fio do enredo para o Rio de Janeiro, a Berlim e a Londres efervescentes da década de 1970. Advogado medíocre na cidade natal que o regime militar precipita em destruição vertiginosa, Lavo acompanha à distância os passos do amigo, recolhendo os reflexos do baile – para citar um outro romance sobre os mesmos anos – que o “primo” artista lhe manda.

O empenho de Lavo, depositário atônito de segredos alheios, redobra no plano da narrativa a tensão que o amigo provoca no âmbito do enredo. Mas nem todo o seu zelo bastaria para dar conta desse destino trágico: a seu próprio relato vêm se somar uma carta de seu tio Ran a Mundo e uma outra, que este último lhe deixa como legado. Cruzando-se ou desencontrando-se, as várias versões da história compõem um retrato estilhaçado tanto da vida familiar – em que o sangue e o afeto não falam a mesma língua – como da vida pública brasileira na era da opressão obtusa e da revolta sem corpo.

Com Cinzas do Norte, Hatoum expande e aprofunda seu projeto ficcional, levando a sério e a cabo a injunção flaubertiana de escrever a “história moral de sua geração”. O resultado é este belo romance, amargo e maduro.

Samuel Titan Jr.

 

Os comentários estão fechados.