Por que traduzi Flaubert

Traduções

 

…la tâche du traducteur ne va pas du mot à la phrase, au texte, à l’ensemble culturel, mais à l’inverse: s’imprégnant par de vastes lectures de l’esprit d’une culture, le traducteur redescend du texte, à la phrase et au mot.

Paul Ricoeur, Sur la Traduction[i]

Mencionei esse breve trecho de um livro de Paul Ricoeur, mas confesso a vocês que desconheço os mandamentos e fundamentos da teoria da tradução. Não sou um tradutor profissional. Traduzi apenas um texto de três de grandes autores franceses – Marcel Schwob, George Sand e Flaubert – e um livro de Edward Said – Representações do intelectual –. Esses autores franceses me interessam por razões literárias; o palestino-americano por razões éticas.

É um privilégio traduzir apenas textos que admiramos, sobretudo no Brasil, onde o trabalho do tradutor – e por que não dizer do professor e do intelectual – ainda é pouco prestigiado, muito pouco reconhecido. No entanto, temos grandes tradutores. Os laços históricos, culturais e afetivos que unem a França ao Brasil certamente contribuíram para a formação de bons tradutores. Jorge Luis Borges declarou – não sem uma pitada de afetação – que na Buenos Aires das primeiras décadas do século passado, o desconhecimento da língua francesa era um atributo de analfabetos. Antes de Borges, a literatura francesa era familiar aos nossos poetas e narradores do século XIX. Machado de Assis traduziu clássicos franceses, e algumas de suas traduções inglesas foram feitas a partir da tradução francesa.

Mas voltando ao breve trecho de Ricoeur, citei-o por dois motivos: o primeiro é que a sugestão de leitura desse ensaio sobre tradução me foi dado de graça por John Gledson, o inglês mais machadiano (e também drummondiano) que conheço. Gledson é um crítico refinado e também um tradutor premiado, pois escreveu um longo ensaio sobre sua relação com a obra de Machado e as traduções em língua inglesa da obra do Bruxo do Cosme Velho. O segundo motivo é que concordo com Ricoeur sobre a tarefa do tradutor. Acredito, mesmo, que o percurso trilhado pelo tradutor não deve partir da palavra para alcançar a frase, o texto e o ambiente cultural, e sim o inverso, ou seja: do espírito de uma cultura ao texto, à frase, à palavra.

Li os volumes da correspondência de Flaubert, que são, a meu ver, uma lição primorosa sobre a arte de narrar; ou melhor, sobre a dificuldade de narrar. Flaubert inaugurou o romance moderno porque problematizou a linguagem: contar uma história implica na seguinte pergunta: como contá-la? E essa é uma questão central para quem escreve, e também para quem está perplexo diante da página em branco: quer dizer, para os que não conseguem escrever. A correspondência é, de certo modo, um afresco da vida e do tempo de Flaubert. Em centenas de cartas há comentários sobre o amor, as amizades, o ambiente literário, cenas da província e de Paris, as viagens ao Oriente, a História francesa, as leituras e obsessões.

Mais adiante vou falar da minha história secreta com Flaubert, o quanto sua obra, já na minha juventude, foi importante para mim. Quando morei na França, tentei entender l’ensemble culturel a que Ricoeur se refere. À semelhança de tantos flaubertianos, visitei a magnífica catedral de Rouen, cujo vitral inspirou a Flaubert escrever o conto Saint-Julien l’Hospitalier. Por sorte, estava na França durante o centenário da morte de Flaubert, e pude assistir à bela exposição de manuscritos de suas obras na Biblioteca Nacional.  Soube então que mais de mil e duzentas páginas manuscritas originaram as 120 páginas dos Três contos. Ao ver de perto essas páginas, me veio à mente uma das lembranças mais fortes da minha juventude.  Há alguns meses, quando os editores da Casa da Palavra me convidaram para participar de uma coletânea intitulada Os 10 livros que abalaram meu mundo, disse-lhes que gostaria de escrever sobre um conto de Flaubert. E é esse texto que, um pouco ampliado, vou ler agora.

O título é: Flaubert, Manaus e Madame Liberalina.

_______________________________________________________

Madame Liberalina nasceu no século de Flaubert e era mulher do cônsul da França em Manaus, numa época em que a cidade ainda era cabocla, afrancesada e provinciana, sem ares de falso requinte e sem a violência da metrópole de hoje.

Para um moleque de doze anos, uma senhora de 83 parecia uma bisavó do outro mundo, uma deusa tutelar que vestia tailleur preto e usava colar de pérolas autênticas. Quando abria a porta, o odor do perfume francês prevalecia sobre o cheiro empestado do esgoto construído pelos ingleses em 1896.

Ela morava numa das cinco casas geminadas da rua Ferreira Penna, quase esquina com a Dez de Julho, perto da monumental Santa Casa de Misericórdia. Por fora, era uma casa sóbria, quase austera com sua fachada neoclássica e anjos carrancudos nas quinas da platibanda.

A primeira vez que entrei na sala fiquei inibido ao ver tantos livros arrumados nas estantes e empilhados no assoalho. Assombrado diante da biblioteca, disse a mim mesmo que, ali, jamais conseguiria escrever sequer um bilhete.

De fato, naqueles meses de inverno e reclusão, não escrevi nada. Minha única tarefa era ouvir Madame Liberalina falar em francês e traduzir para o português. E o que ouvi foi um conto de um livro incrível. Lembro da poltrona na sala que dava para o quintal com palmeiras, avencas e tajás. Essa monotonia verde era interrompida por helicônias encarnadas. Enquanto a chuva caía com a intensidade de um dilúvio, ouvia a voz de Madame traduzir o conto Un coeur simple, de Flaubert. De simples, esse texto não tinha nada. Não existe coração simples na vida nem na literatura. Mas a ironia, que nem sempre faz parte da vida, já estava no título do Urso de Croisset.

“Estás vendo como o autor se esconde na história? Podes perceber que ele não aparece?”

Não vi, nem percebi: não fui esse gênio que leu Proust antes do primeiro beijo. O que eu percebi – ou intuí – é que a história de Félicité não era apenas uma história francesa.

Na tradução feita e lida lentamente por Madame Libê, era impossível ser indiferente ao sofrimento da pobre empregada invejada por outras patroas de Pont l’Evêque. Sofrimento de uma vida obediente, que fracassou no amor; ou melhor, foi ludibriada no amor e nos laços de família, e explorada até a morte nas relações de trabalho. Isso eu não apenas percebi como também tracei algum paralelo com a vida das empregadas que conheci e com as quais convivi em Manaus. Jovens ou velhas, elas se extenuavam para comer e ter um teto nos fundos da casa. Às vezes nem se tratava de uma casa grande, pois essas empregadas não remuneradas podiam morar em uma edícula de casas da classe média.

Nesse aspecto, lembravam as Félicités da França do século XIX. Além disso, as personagens provincianas do conto, excetuando os nobres decadentes e patéticos de Pont-l’Évêque, mantinham alguma afinidade com pessoas que conheci ou que se exibiam no imenso palco da província. Uma certa vulgaridade e uma bêtise desenfreada os unia. As distâncias – geográfica, temporal, cultural e social – não aboliam totalmente certos paralelismos, afinidades e confluências entre o ambiente da narrativa e o tempo presente, da leitura. Ou seja, as diferenças entre as duas sociedades reforçavam o que nelas havia em comum: um fosso social entre a elite e as pessoas humildes. E o mais importante: o mundo do trabalho e das relações sociais envolve a personagem numa rede cada vez mais constrita e cruel cujo limite é a loucura, o delírio e, por fim, a morte.

Pela primeira vez ouvi falar da revolução de 1848, da Comuna de Paris reprimida por Adolphe Thiers em 1981 e da guerra franco-prussiana. Alguns desses eventos históricos são mencionados no conto, e o que deveria ter sido apenas uma série de aulas de gramática e fonética foi, na verdade, uma lição sobre a cultura francesa.

Em dezembro de 1967, quando fui embora de Manaus e vim morar em Brasília, trouxe as notas das traduções de contos de Flaubert e Maupassant, e um calhamaço com anotações sobre a gramática francesa, com ênfase na diferença entre a língua falada e a literária. Lembro que ela advertia: quando falares em francês, esqueça o passé simple.

Nunca mais vi madame Liberalina, nunca mais esqueci Um coração simples. Trinta e cinco anos depois do encontro com a professora Libê, traduzi os Três contos com um amigo que escreveu um excelente ensaio sobre esse livro.[1]

Não sei até que ponto esse e outros textos abalaram minha vida. As paixões e as tragédias nos abalam mais do que as palavras, pois a vida é mais complexa e surpreendente do que a literatura. Mas, como acontece com os grandes textos literários, a cada releitura de Um coração simples encontrava na vida das personagens uma elaboração complexa das relações humanas.

Na linguagem precisa e exata de Flaubert, a trajetória de Félicité se comprime em menos de cinqüenta páginas. Um conto que não se estrutura como um conto. Tampouco como uma novela, muito menos como um romance. Nesse sentido, a busca por um gênero literário é desconcertante. Isso em 1873, ano da publicação desses três relatos, que lembram miniaturas de três grandes narrativas de Flaubert: Madame Bovary, A tentação de Santo Antônio e Salammbô.

É provável que as circunstâncias e o momento em que tomei conhecimento do conto tenham sido determinantes para mim. Sem essa “leitura de ouvido”, que me permitiu desvelar uma realidade que teimava em se esconder no âmbito da família e no antro da província, não sei se teria escrito o romance Dois irmãos. Alguma coisa da personagem Domingas foi inspirada em Félicité. Na hora da morte, alucinada pela visão do paracleto,  ela vê no papagaio Loulou – um perroquet Amazone – a figura do Espírito Santo. Essa foi apenas uma de tantas influências conscientes, pois há outras que sequer sabemos.

Há, sobretudo, a linguagem: o estilo, o ritmo, o movimento da frase. Flaubert – como Jorge Luis Borges e Anton Tchekhov – mostra ao leitor o que significa escrever bem. Quase ao mesmo tempo ele revela ao leitor que escrever bem não basta: é necessário que a linguagem exata – le mot juste – se transforme em literatura. A consciência dessa passagem abalou minha experiência de leitor. E esse abalo, sim, foi um instante de rara felicidade.


[1] Três contos, de Gustave Flaubert, trad. de Samuel Titan Jr. e Milton Hatoum, CosacNaify, São Paulo, 2004. A tese de Samuel Titan Jr. – Ares de romance: Realismo e gêneros literários nos Três contos de Gustave Flaubert – foi defendida em 2003 na USP. 

Deixe seu comentário...