“Plenamente selvagem”, entrevista para Carlos Marcelo – Correio Braziliense

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Caderno Pensar – Correio Braziliense

O escritor amazonense Milton Hatoum fala do novo livro, que já vendeu 10 mil exemplares, e assume a inconstância brasileira, herdada dos índios tupinambás

 

 

Carlos Marcelo
Da equipe do Correio

Luiz Braga/Editora Schwarcz/Reprodução
 
Órfãos do Eldorado
De Milton Hatoum. 108 páginas, Companhia das Letras. R$ 29,00.
 

“Conto o que a memória alcança, com paciência”, afirma o narrador de Órfãos do Eldorado, o novo livro de Milton Hatoum. O escritor amazonense admite que a sentença também se encaixa na descrição do próprio método de trabalho. “Não tinha pensado nisso, mas agora me identifico com essa frase do narrador. Talvez seja a única passagem autobiográfica do livro”, revela, em entrevista ao Correio, o autor dos premiados Dois irmãos e Cinzas do Norte. Órfãos… integra a coleção Mitos, da editora escocesa Canongate, e, por isso, já teve os direitos de publicação vendidos para mais de 15 países. No Brasil, a novela de 107 páginas começa em ritmo acelerado: a primeira edição, com 10 mil exemplares, já se esgotou e foi providenciada uma reimpressão de mais cinco mil livros. Em entrevista ao Correio, Hatoum fala sobre o livro, critica o descaso do Brasil em relação à Amazônia e rememora a passagem por Brasília, onde estudou no Centro Integrado de Ensino Médio (Ciem) antes de ser perseguido pelos militares e deixar a cidade de forma traumática.

Como encarou o desafio de converter mito em ficção?
Esse foi um dos desafios. Acho que literatura é mito, narrativa, uma das tantas histórias que circulam nas culturas do Oriente e do Ocidente. Ian Watt mostrou que os principais mitos do individualismo moderno são punitivos. Os personagens desafiam as convenções sociais e partem em busca de um desejo que, afinal, não se realiza. O limite dessa busca é a solidão, a morte ou a loucura. E a história dessa busca é o romance. O Eldorado não é apenas a Cidade Encantada, é também o desejo do narrador (Arminto) e a ambição do pai dele (Amando).

Os mitos sobrevivem na Amazônia, mesmo em tempos de antenas parabólicas e internet?
Lembro-me de uma imagem maravilhosa criada por Chico Science: uma antena parabólica enterrada no mangue. Há antenas na floresta. Mesmo assim, os mitos sobrevivem. A tecnologia não anulou por completo a força da natureza. “Alguém ainda ouve essas histórias?”. Essa pergunta do narrador é, de alguma maneira, a pergunta que você me fez. E quando os mitos e as vozes são silenciadas ou esquecidas, alguém por aí deve narrá-los outra vez, com outra linguagem. O mito é um pretexto da ficção.

“Eu tinha uns nove ou dez anos, nunca mais esqueci”, afirma o narrador, logo no início do livro. As lembranças de infância representam, portanto, como ele diz, o “momento em que as histórias fazem parte de nossas vidas”?
As lembranças ecoam no futuro, que é o presente da escrita, o momento em que você começa a escrever. No Órfãos, os mitos da infância repercutem na vida do narrador Arminto. Quando isso acontece, o mundo do mitos (a natureza) se transforma em drama, narrativa ficcional.

Por que acredita que os brasileiros temos uma alma indígena?
O ensaio A inconstância da alma selvagem, de Eduardo Viveiros de Castro, me fez refletir sobre a nossa volubilidade, que é um traço dos tupinambás, característica que certamente herdamos, mas não assumimos. Às vezes sublimamos. A inconstância do comportamento e do pensamento dos tupis enlouquecia e enfurecia os colonizadores militares e religiosos. É difícil resumir o complexo ensaio de Viveiros, mas ele mostra como a teologia tupi era alheia à transcendência, e refutava a humildade e a má consciência cristã. Mostra também como era absurda para os índios a idéia de reduzir o outro à sua própria imagem. O que movia o pensamento indígena era a absorção do outro e, portanto, a alteração de si mesmo. Acho que Oswald de Andrade percebeu ou intuiu isso e escreveu o Manifesto Antropofágico, que é a nossa verdadeira Bíblia. No Órfãos, a personagem carmelita (a madre espanhola) não entende a inconstância dos índios e caboclos porque o dogma, qualquer dogma, é alheio à teologia Tupi. Como diz Viveiros, o inimigo dos colonizadores não era um dogma diferente, mas uma indiferença ao dogma. Ou seja, a inconstância é uma constante da alma selvagem. Nesse sentido, eu sou e me sinto plenamente selvagem.

Duas semanas antes do lançamento de Órfãos do Eldorado, o barco Almirante Monteiro colidiu com uma balsa no Rio Amazonas e provocou 16 mortes. O descaso com itens básicos de cidadania na região é histórico ou tem mostrado alguma evolução? Como o Brasil vê a Amazônia?
O descaso é histórico. Aliás, o descaso e a impostura. E também a violência contra as mulheres, os pobres, as crianças. O índio imolado em Brasília é uma das grandes indignidades deste país, porque além da violência há a impunidade, que é irmã da barbárie. O judiciário no Brasil é frágil, embora pomposo e arrogante. Por isso um personagem do Cinzas do Norte zomba o tempo todo da Justiça. No Órfãos tentei evocar a violência e a desfaçatez: o linchamento de um personagem, meninas estupradas, o conluio do empresário Amando com políticos. O centro simbólico do Órfãos é um lugar perdido do Amazonas, mas a narrativa poderia ter ocorrido em qualquer lugar do Brasil. Infelizmente o Brasil desconhece a Amazônia. Fala-se muito do arco da devastação da floresta, que é chocante. Não menos chocante é a miséria e o abandono de mais de vinte milhões de habitantes da Região Norte. O romance pode ser lido como uma história de amor. Aliás, várias histórias de amor, algumas apenas insinuadas. Mas um leitor atento vai perceber que é uma ficção sobre a impostura e a violência. Nada é denunciado ou dito de um modo ostensivo, mas o desmando e a brutalidade estão lá, nas entrelinhas.

Dramas familiares movem as tramas de seus livros. Por que esse universo íntimo o fascina?
Porque faz parte da literatura e de uma forte tradição romanesca. O romance é a história de um indíviduo ou de um grupo mais ou menos extenso de personagens. E o mito reaparece outra vez nessa história individual ou gregária. O que interessa é a falta de sintonia do personagem com a sociedade onde vive. O romance é a narrativa desse desajuste. E isso desde o Quixote, que confundia suas fantasias com a realidade. Às vezes o drama familiar se limita à esfera privada; outras vezes esse drama transcende a família e a casa e aponta para questões mais gerais: a cidade, a região, o país. Tentei falar de muitas coisas em cem páginas. O projeto inicial era um romance longo e complicado, mas isso não cabia na coleção Mitos da editora escocesa. Então podei os galhos e a folhagem espessa da árvore, e fiz da seringueira uma palmeira quase nua.

Como a passagem traumática por Brasília ficou guardada em suas lembranças?
Em 1970 me afastei de Brasília. Aliás, o governo militar causou esse trauma, porque eu adorava o Ciem, que foi, sem exagero, um dos melhores colégios do país. Comparo essa separação com uma história de amor em que uma terceira pessoa, intrusa e violentíssima, se intrometeu nessa história. Há alguns anos fiz as pazes com a capital quando o Correio me convidou para participar do aniversário da cidade (Hatoum escreveu, em 2002, a crônica Águas encontradas para o caderno especial 4+2). Já escrevi duas crônicas sobre Brasília, para onde sempre volto com prazer e um travo de nostalgia.


De naufrágios e sobreviventes
Stefania Chiarelli
Especial para o CorreioO mito é o nada que é tudo, afirmou Fernando Pessoa. Dessa força constante de recriação, da trama de fabulações mitológicas de origem indo-européia e ameríndia nasce o mais recente livro de Milton Hatoum. Não é exagero afirmar que o escritor amazonense é adorado pelos leitores e reconhecido pelos críticos. Uns e outros têm motivos para celebrar Órfãos do Eldorado: lá estão, como em seus outros escritos, o viés memorialístico, os dramas familiares, a cidade como cenário e cúmplice de fatos marcantes, as águas amazônicas em sua potente expressão.O móvel da história não se detém, entretanto, no aspecto mítico da trama. Ele é pretexto para nomear a situação de uma sociedade marcada pela prática do favor, do clientelismo, da propina, características presentes na conduta do pai do narrador, Amando Cordovil. A ética da acumulação não seduz Arminto, seu herdeiro. A partir dessa e de outras divergências se inicia a bancarrota familiar.A Amazônia costuma simbolizar fausto e riqueza, mas nesta narrativa ela surge como palco de violência, de negociatas, ambiente de crianças roubadas e abusadas. Como Florita, a indígena de quem o órfão Arminto bebe o primeiro leite e as palavras traduzidas da língua geral. É dela a tarefa de criar a ponte entre mundos, de recriar esse outro universo aos olhos do menino curioso. A primeira cena do livro já desmistifica a figura muitas vezes idealizada do índio: Florita vê uma mulher se suicidando no rio e deturpa o sentido de suas últimas palavras. Para que o garoto não se impressione, conta a ele que a moça fora atraída por um ser encantado no fundo das águas. Traduzir é também trair, modo de lidar com uma história de domínio e imposição cultural. Anos depois, Arminto compreende o significado das palavras trocadas, e essa noção de engodo perpassa toda a narrativa.

Das palavras em língua estranha de uns ao silêncio absoluto de outros também se faz a novela. Dinaura, a mulher amada por Arminto, esconde um segredo. Após uma única noite de amor, desaparece, e ele passa a buscar seu paradeiro, terminando de arruinar o patrimônio dos antepassados. A pesada atmosfera familiar de culpa e morte, de ausência paterna e dissipação do legado material e afetivo abre espaço para a dúvida que permanece quando finda a leitura. Hatoum não reserva ao final, como nos dois últimos livros, revelação que arremata o desenlace. Elementos da trama permanecem na obscuridade. Com isso ganha o leitor, chamado a tomar parte ativa na história, a imaginar. Certo é que Dinaura se inscreve em uma linhagem de personagens femininos da literatura brasileira: a dança em clima de possessão e erotismo homenageia Ana, de Lavoura arcaica, outra figura marcada pelo drama do incesto e da lei paterna.

Eis uma das delicadezas da construção de Hatoum: a literatura se beneficia desse diálogo entre textos e encontra lugar especial entre seus personagens. A palavra poética como conhecimento de si e dos outros, como mediação entre as experiências e as pessoas, aparece nos poemas citados, nos personagens-leitores, na homenagem a Manuel Bandeira, Raduan Nassar e Machado de Assis.

De tom melancólico, falando de perda, luto e ruínas, Hatoum revisita o mito da Cidade Encantada para contar uma história de amor, e também para transmitir relatos que ouviu e que circulam oralmente entre os indíviduos. Navios, fortunas e paixões naufragam, mas sobrevivem as histórias e o desejo de contá-las.


Stefania Chiarelli é doutora em Letras pela PUC-Rio e autora de Vidas em trânsito: as ficções de Milton Hatoum e Samuel Rawet (Annablume, 2007)

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