Contos (1)

A cidade ilhada

Contos  

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Como disse uma vez o escritor argentino Julio Cortázar, o conto é uma pequena e perfeita esfera verbal que guarda uma única semente a ponto de eclodir. A semente pode ser de qualquer natureza — um lugar, um rosto, um episódio —, contanto que as mãos hábeis do bom contista saibam torná-la o ponto central a partir do qual se forma a esfera narrativa. Desse feitio, justamente, são os contos que Milton Hatoum reuniu em A cidade ilhada: relances da experiência vivida recolhidos em tramas brevíssimas, de dicção enxuta, em que tudo ganha nitidez máxima — e máximo poder de iluminação. As sementes destes contos não poderiam ser mais diversas: a primeira visita a um bordel em “Varandas da Eva”; uma passagem de Euclides da Cunha em “Uma carta de Bancroft”; a vida de exilados em “Bárbara no inverno” ou “Enco fast cash advance ntros na península”; o amor platônico por uma inglesinha em “Uma estrangeira da nossa rua”. Com mão discreta e madura, Hatoum trabalha esses fragmentos da memória até que adquiram, sem que se adivinhe como ou quando, outro caráter: frutos do acaso e da biografia pessoal, eles afinal se mostram como imagens exemplares do curso de nossos […]